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Chega de direito e esquerdo

 

Você já deve ter ouvido que o lado esquerdo do cérebro é racional, e o direito, emocional; que o esquerdo é lógico, e o direito, criativo; que o esquerdo é mais ativo do que o direito em homens, e o direito mais ativo que o esquerdo em mulheres. Faça as contas e você chega à conclusão lógica: homens são mais racionais e lógicos, e mulheres mais emocionais e criativas.

Só que não é assim. A primeira suspeita deveria ser a origem histórica dessas afirmações: elas datam do século 19, quando a neurociência era ainda recém-nascida e, portanto, muito pouco se conhecia sobre como o cérebro funciona. A descoberta, anunciada por Paul Broca em 1861, de que a produção da fala depende do hemisfério esquerdo do cérebro, suscitou uma revisão do conceito então corrente na biologia de equivalência entre os dois lados do corpo.

Uma tabela publicada no final do século 19 ilustra a proposta de revisão: o lado esquerdo do cérebro, relacionado à fala, seria "logicamente" também associado à racionalidade, à volição, ao consciente, e à masculinidade, e... à cor branca da pele. O que sobra para o outro lado do cérebro? Oras, a irracionalidade, o emocional, o inconsciente, a feminilidade, e... a cor escura da pele. Preciso lembrar ao leitor que o mundo então era completamente dominado pelo homem branco europeu?

A neurociência cresceu, descobriu que não era bem assim --mas a psicologia popular não deu bola. É muito mais fácil e aparentemente instigante propagar ideias maniqueístas de uma divisão entre esquerda e direita, homens e mulheres. Apoia estereótipos vigentes e vende livros e oficinas "para desenvolver o lado direito do cérebro".

Agora, uma equipe da Universidade de Utah, nos EUA, analisou um banco de dados contendo exames funcionais do cérebro de mais de mil voluntários de vários países em busca de diferenças entre indivíduos na lateralização funcional do cérebro. Como já se sabia, a lateralização existe --embora apenas em relação à linguagem (mais ao lado esquerdo) e à atenção (mais ao lado direito).

Mas não há diferença no grau de lateralização entre homens e mulheres nem evidência de que qualquer lado do cérebro predomine mais ou menos em pessoas diferentes. Minha esperança de ver o público se tornar mais crítico e não aceitar a propaganda fácil sobre seu cérebro acaba de aumentar.

Fonte: Folha

Autora: Suzana Herculano-Houzel
Neurocientista
Professora da UFRJ
Autora de "Pílulas de Neurociência Para Uma Vida Melhor”
Blog: www.suzanaherculanohouzel.com

Tags: "cérebro"

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