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Posso ajudar?

Posso ajudar?

Comida para pensar

 

Um deles é sobre a neurociência do aprendizado e o que nos torna humanos e diferentes dos outros animais. Em outro livro, falo do cérebro apaixonado. Ainda não há data marcada para lançá-los.Nos livros que está escrevendo, você vai abordar mais sobre os estudos em torno da comida ou tratar de quê?

 

Com o grande acesso aos eletrodomésticos, à geladeira, ao supermercado, as pessoas, em geral, já comem mais do que precisam para o bom desempenho do cérebro. Em fases de desafios, que exigem maior clareza mental, é válido reforçar a quantidade de comida cozida?

 

A cozinha industrial é só uma versão em grande escala da caseira. A diferença é a grande porção de açúcares e de sal colocada para dar sabor, o que faz boa parte dos produtos se tornarem bombas calóricas. Mas, em casa, também se elaboram bombas parecidas. O problema da comida moderna é o teor elevado de calorias que o cozimento proporciona. Nós precisamos é de um cardápio saudável e variado, com proteínas, gorduras e carboidratos. A comida industrializada perde propriedades nutricionais e não é parceira do cérebro?

 

Aprimorar capacidades, certamente sim. Já desenvolver, no sentido de formar, não. A partir do ato de cozinhar, foi possível seguir com o processo seletivo de um cérebro cada vez maior e mais competente. E sobrou tempo para aprendizados como a escrita, a agricultura e para o relacionamento com o outro. Isso amplia as capacidades. É possível desenvolver mais o cérebro na fase adulta?

 

Elas amam, provavelmente, porque precisam das gorduras para sustentar a formação do cérebro. Mas de gorduras realmente saudáveis. Na infância, está sendo constituída a bainha de mielina, que encapa os nervos do corpo, e as fibras nervosas no cérebro, que são responsáveis por acelerar a condução de sinais no sistema nervoso. A mielina é uma capa de gordura com grande quantidade de ômega 3 (fornecida por sardinha, salmão, hadoque, linhaça e chia, entre outros alimentos) e ômega 6 (encontrado em óleos vegetais, nozes e sementes). Para compor a estrutura das células, adultos também precisam delas. Não conseguimos fabricar gorduras com carboidratos. Mas manter uma dieta rica nas saturadas ou trans traz prejuízos para crianças e adultos. Por que as crianças amam comer alimentos gordurosos, como pipoca, salgadinhos de pacote e outros tipos de guloseima nada saudáveis?

 

Não. Um vegetariano tem grandes riscos de não ingerir a quantidade suficiente de proteínas, o que faz falta para a manutenção e o bom funcionamento dos neurônios. Proteínas são fundamentais, sobretudo no início da vida, quando o cérebro se desenvolve. Bebês e crianças não devem ser submetidos a dietas vegetais, a não ser sob supervisão médica. E impor um cardápio crudívoro a eles é, no meu entendimento, uma temeridade. Vegetarianos tendem a ter memória e raciocínio melhores do que as pessoas que comem muita carne, cozida ou crua?

 

Ela rende pouquíssima energia. Com exceção da maioria das frutas, os alimentos crus são duros e exigem muito tempo de mastigação. Um bife requer uma hora. Se engolirmos mais rápido, a digestão será apenas parcial, já que ele não ficou totalmente exposto às enzimas digestivas na boca. Na prática, uma batata crua com 100 gramas de carboidrato não rende as 400 calorias que poderia. O corpo aproveita só 40%. Cozida - e, portanto, pré-digerida -, tem rendimento calórico completo. A dieta crua leva ao emagrecimento, a um estado de fome permanente e até à desnutrição. Mas pode ser aproveitável se adotada de forma desidratada. Removida a água, aumenta a densidade calórica do alimento. O mesmo ocorre com outros processados, como purês, pastas e sucos. É mais fácil beber uma laranja que comê-la. Nossos ancestrais não dispunham desses recursos. Tinham de catar o que achavam e mastigar do zero. A comida crua não ajuda os neurônios em nada?

 

Pensando na vida selvagem e em termos evolutivos, há 1 milhão de anos teria sido impossível alimentar o cérebro humano, com tantos neurônios. O gorila, que consegue comer por oito horas diárias, tem o cérebro três vezes menor que o nosso. Quanto mais avantajado, maior a quantidade de neurônios e de calorias para nutri-lo. O custo médio é de 6 calorias diárias para cada bilhão de células nervosas. Por isso, criamos a cozinha. Nossa espécie seria inviável se tivéssemos seguido com a dieta completamente crua?

 

Embora parecido com o dos ancestrais, com habilidade semelhante para construir, organizar e memorizar, o cérebro humano é usado com mais requinte; e o alimento cozido tem boa participação nisso. Segundo Suzana, com ele, a digestão é mais fácil, o que amplia a absorção e aumenta o aporte de calorias e nutrientes. Aqui, ela fala desse seu estudo, publicado na revista científica americana Proceedings of the National Academy of Sciences, e explica como tirar o melhor proveito da alimentação.

 

A dieta crua é insuficiente para manter nosso cérebro azeitado e estimulado. Se adotássemos somente receitas que não vão ao fogo, teríamos de passar mais de nove horas por dia comendo para obter a energia necessária ao bom desempenho dos neurônios - já que cerca de 20% da reserva energética do nosso corpo é consumida pelas células nervosas. Esses cálculos foram feitos, pela equipe da neurocientista Suzana Herculano-Houzel, na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Para a especialista - que escreve livros com linguagem simples e usa o jornal e a TV para traduzir suas descobertas de laboratório -, a invenção do fogão pode ter feito o homem atingir cerca de 86 bilhões de neurônios ante os 33 bilhões encontrados no gorila e os 28 bilhões no chimpanzé.

 

Fonte: Planeta Sustentável
Autora: Suzana Herculano-Houzel
Neurocientista
Professora da UFRJ 
Autora de "Pílulas de Neurociência Para Uma Vida Melhor”
Blog: www.suzanaherculanohouzel.com

Tags: "cérebro"

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