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Empreste seu cérebro a um adolescente


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Você se lembra de quando era com você? Dotados de capacidades cerebrais crescentes, como raciocínio lógico cada vez mais aguçado e a possibilidade de lidar com informações abstratas, adolescentes questionam as regras que lhes são impostas pelo mundo e querem tomar suas próprias decisões.


Faz sentido: afinal, é tomando decisões e anotando os acertos e os eventuais erros que a gente aprende a tomar boas decisões.


O problema, que deixa pais e professores compreensivelmente aflitos, é que até que a adolescência termine ainda falta ao cérebro, por definição, completar o amadurecimento de uma parte crucial às boas decisões: o córtex órbito-frontal, responsável, entre outras coisas, pela capacidade de arrependimento e, por extensão, da antecipação de arrependimentos.


O impacto é grande. Arrepender-se não é apenas lamentar uma decisão ruim; é reconhecer que outra alternativa teria sido melhor e lamentar que ela não tenha sido escolhida.


Antecipar arrependimentos, portanto, é a capacidade de levantar desde agora várias alternativas possíveis e ainda avaliar quais têm mais chances de trazer felicidade futura ou consequências nefastas. Essa é a base do raciocínio consequente para a tomada de decisões.


E é essa uma das últimas capacidades a amadurecer, lá pelos 17, 18 anos e que, certamente, continua a se aperfeiçoar com a experiência, até nos tornarmos adultos e, portanto, exímios aventadores e avaliadores de alternativas.


Até lá, tem-se um adolescente que exige tomar suas próprias decisões, mas que ainda não sabe aventar sozinho todos os desdobramentos possíveis.


O que fazer?


Tive a sorte de ser a filha adolescente de um pai que tinha uma solução ótima, antes mesmo de descobrir que a neurociência teria a mesma dica.


Em vez de decidir por mim que eu deveria abastecer o carro antes de ir para a festa, meu pai apenas me oferecia seu córtex órbito-frontal emprestado e aventava para mim as possibilidades que eu ainda não enxergava sozinha: "Já pensou que os postos podem estar fechados na volta? Você pode ficar parada na rua...". Assim ficava fácil tomar a boa decisão de abastecer na ida.


Claro que é preciso um bocado de autocontrole para emprestar sua capacidade de aventar possibilidades para os jovens sem decidir por eles. Mas, para um adulto, autocontrole já não deveria ser problema...

Fonte: Folha Autora: Suzana Herculano-Houzel Neurocientista Professora da UFRJ Autora de "Pílulas de Neurociência Para Uma Vida Melhor” Blog www.suzanaherculanohouzel.com

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